Blasfemos

Há um trecho no “Evangelho Segundo Jesus Cristo”, de José Saramago, no qual se lê um diálogo entre Jesus e Maria de Magdala. Segue a transcrição:

Sabes quem eu sou, o que faço, do que vivo, Sei, Não tiveste mais que olhar para mim e ficaste a saber tudo, Não sei nada, Que sou prostituta, Isso sei, Que me deito com homens por dinheiro, Sim, Então é o que eu digo, sabes tudo de mim, Só sei isso.

A passagem, mudando-se o que precisa ser mudado, diz algo sobre os dias que estamos vivendo. Segue uma paráfrase do texto. Ou paródia, como queiram.

Sabes quem sou, Sim, votaste no Lula, Não te perguntei se sabes em quem votei, perguntei-te se sabes quem sou, Ora, sabendo que votaste no Lula automaticamente sei que és, Então me diga, quem sou, És, inicialmente, um ignorante, um idiota, um imbecil e, depois, um vadio, um traidor da pátria e de Deus, um homem de valores invertidos, muito provavelmente és também um canalha.

Para Jesus, ao menos neste Evangelho blasfemo, muito embora haja motivos para acreditar que assim também o seja nos Evangelhos santificados, o fato de Maria de Magdala ser prostituta era apenas uma fração daquela mulher. Hoje, ter votado em Lula é uma mancha irremovível na alma da pessoa, absolutamente definitiva e definidora de seus caráter e índole.

2 respostas a “Blasfemos”

  1. Avatar de
    Anônimo

    Luciano, concordo com sua reflexão. Ninguém deve ser definido pelo candidato em quem votou. Mas essa compreensão precisa valer para todos. Afinal, quem votou em Bolsonaro também não pode ser automaticamente tratado como ignorante, intolerante ou alguém sem consciência social. Você trouxe Saramago. Eu prefiro lembrar o Evangelho de Jesus, que nos ensina, em João 7:24, a julgar com justiça, não pelas aparências. Cristo acolhia as pessoas sem necessariamente concordar com suas escolhas. Amor e verdade nunca foram inimigos. O voto não define todo o caráter de alguém, mas também não é um gesto sem consequências. Podemos respeitar as pessoas e, ao mesmo tempo, questionar suas escolhas políticas. A grande contradição é exigir respeito por pensar diferente e negar esse mesmo respeito a quem discorda de nós. Porque, no fim, a intolerância não deixa de ser intolerância só porque vem de alguém que se considera tolerante.

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  2. Avatar de Yves Goulart
    Yves Goulart

    A necessidade de reduzir o outro a um rótulo para não precisar reconhecer sua complexidade. Quando o voto se transforma em sentença moral, o adversário deixa de ser alguém com quem se discorda e passa a ocupar o lugar daquele que precisa ser desqualificado. Freud nos ajuda a pensar nos mecanismos de defesa e na necessidade de preservar uma imagem idealizada de nós mesmos; Lacan, na força dos significantes que aprisionam o sujeito em identificações. O mais inquietante é que, ao acreditar que sabe tudo sobre alguém apenas pelo seu voto, o indivíduo talvez revele menos sobre o outro do que sobre seus próprios limites para reconhecê-lo. Afinal, criticar uma escolha é legítimo; pretender que ela defina integralmente o caráter de uma pessoa é outra coisa. A intolerância começa quando deixamos de questionar as ideias do outro e passamos a negar a complexidade de quem ele é.

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