Eu quero logo o golpe e a ditadura,
Quero ser preso, sofrer tortura.
Que meus conterrâneos digam: teve o que mereceu!
Tivesse ficado quieto, obedecido, não tinha desaparecido.
Meus filhos fiquem órfãos,
Minha biografia seja enxovalhada.
Era um vagabundo, agitador.
Não valia nada.
Eu quero que o Antigo Testamento vire lei,
Acabar logo com a peste gay.
Quero o Deus de Abraão,
Exigindo o sacrifício do filho,
Quero o Deus de Isaac e de Jacó.
Quero ser entregue ao diabo,
Tal qual foi feito com Jó.
Oxalá voltemos ao passado glorioso
Quando a mulher era submissa,
Ia, no máximo, à missa,
E o marido, poderoso, podia desfrutar em paz de suas amantes.
Que tudo volte a ser como antes.
Que piadas racistas sejam liberadas,
Que se acabe com o mimimi.
Que os homens de bem mostrem, enfim, quem é que manda aqui.
Eu quero de novo os pelourinhos,
Que o preto, a travesti, o maconheiro,
Fiquem todos bem quietinhos.
Aliás, peço cana braba aos maconheiros,
Esses vagabundos fedorentos.
Quero um país virtuoso, um país catarinense,
Um país onde as pessoas como eu,
Que renegam o privilégio de ter nascido de olhos azuis,
Sejam logo pregadas na cruz.
Quero um mundo de meritocracia,
Sem essa merda de poesia.
Quero rápido o golpe militar,
Ser preso, apanhar.
Eu sonho com esse mundo melhor.
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