Um mundo melhor

Eu quero logo o golpe e a ditadura,

Quero ser preso, sofrer tortura.

Que meus conterrâneos digam: teve o que mereceu!

Tivesse ficado quieto, obedecido, não tinha desaparecido.

Meus filhos fiquem órfãos,

Minha biografia seja enxovalhada.

Era um vagabundo, agitador.

Não valia nada.

Eu quero que o Antigo Testamento vire lei,

Acabar logo com a peste gay.

Quero o Deus de Abraão,

Exigindo o sacrifício do filho,

Quero o Deus de Isaac e de Jacó.

Quero ser entregue ao diabo,

Tal qual foi feito com Jó.

Oxalá voltemos ao passado glorioso

Quando a mulher era submissa,

Ia, no máximo, à missa,

E o marido, poderoso, podia desfrutar em paz de suas amantes.

Que tudo volte a ser como antes.

Que piadas racistas sejam liberadas,

Que se acabe com o mimimi.

Que os homens de bem mostrem, enfim, quem é que manda aqui.

Eu quero de novo os pelourinhos,

Que o preto, a travesti, o maconheiro,

Fiquem todos bem quietinhos.

Aliás, peço cana braba aos maconheiros,

Esses vagabundos fedorentos.

Quero um país virtuoso, um país catarinense,

Um país onde as pessoas como eu,

Que renegam o privilégio de ter nascido de olhos azuis,

Sejam logo pregadas na cruz.

Quero um mundo de meritocracia,

Sem essa merda de poesia.

Quero rápido o golpe militar,

Ser preso, apanhar.

Eu sonho com esse mundo melhor.

2 respostas a “Um mundo melhor”

  1. Avatar de Maristela M Fabro
    Maristela M Fabro

    Claro! Vamos reviver o que foi “BOM”!

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  2. Avatar de Yves Goulart

    Ao ler Um mundo melhor, de Luciano Schimidtz, é impossível não pensar em Arthur Rimbaud e na tradição poética que transforma a revolta em linguagem. Se Rimbaud rompeu com as convenções de seu tempo, desafiando a moral burguesa e expondo as contradições da sociedade, Luciano utiliza a ironia como instrumento de denúncia política. Ao declarar que deseja o golpe, a ditadura, a prisão e a tortura, constrói uma voz que, pelo avesso, revela o absurdo do autoritarismo.

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